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14 de janeiro de 2026

Do Confronto Geoeconômico ao Colapso Ambiental: o Mapa dos Riscos Globais

O World Economic Forum (WEF) lançou o Global Risks Report 2026 (21ª edição), que apresenta uma leitura estratégica dos riscos com potencial de gerar impactos sistêmicos sobre a economia global, sociedades e recursos naturais. O relatório tem como base o Global Risks Perception Survey, com contribuições de mais de 1.300 especialistas globais de governos, empresas, academia, organizações internacionais e sociedade civil, que avaliaram 33 riscos globais em horizontes de curto e longo prazo.

A edição de 2026 descreve o cenário internacional como uma “Era de Competição”, marcada pelo enfraquecimento do multilateralismo, maior rivalidade entre potências e uso crescente de instrumentos econômicos e tecnológicos como ferramentas estratégicas. O ambiente é caracterizado por elevada incerteza e maior risco de crises interconectadas.

No curto prazo (2026–2028), predominam riscos geopolíticos e sociais. O principal risco apontado para 2026 é o confronto geoeconômico, associado ao aumento de sanções, tarifas e restrições a capitais, tecnologia e comércio. Em seguida, destacam-se os conflitos armados entre Estados, reforçando um cenário de instabilidade e tensões com potencial de escalada.

No longo prazo (até 2036), o relatório indica que os riscos ambientais voltam a ocupar o centro do debate global. Entre os mais críticos estão eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade e colapso de ecossistemas e mudanças críticas nos sistemas terrestres, evidenciando que a degradação ambiental tende a se intensificar.

Em relação ao relatório de 2025, a edição de 2026 confirma a ascensão do confronto geoeconômico como principal preocupação no curto prazo, refletindo um mundo mais fragmentado e competitivo. Observa-se ainda uma redução relativa da prioridade ambiental no curto prazo, influenciada por crises imediatas, embora os riscos ambientais continuem dominantes no longo prazo. O relatório também reforça a centralidade da governança da inteligência artificial, devido ao seu potencial impacto sobre mercados de trabalho, confiança social e segurança.

Em síntese, o relatório aponta um mundo mais competitivo, menos coordenado e com riscos crescentemente interdependentes. A capacidade de antecipação, governança e cooperação será determinante para reduzir vulnerabilidades e ampliar a resiliência global.

7 de setembro de 2025

Banco Central conduz pesquisas sobre riscos climáticos extremos

Recentemente o Banco Central do Brasil (Bacen) divulgou o volume 5 do Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticos. A respeito desse Relatório, destacamos os estudos que o Bacen tem desenvolvido voltados à análise de riscos climáticos e seus impactos sobre a economia e o Sistema Financeiro Nacional (SFN). Esses estudos abrangem tanto os efeitos de eventos climáticos extremos quanto os riscos associados à transição para uma economia de baixo carbono.

Um dos estudos busca entender como geadas extremas afetam o fluxo financeiro de empresas e a estrutura da cadeia produtiva em localidades afetadas por esse tipo de evento climático. O objetivo é compreender como eventos climáticos específicos afetam a produção agrícola, os rendimentos e, consequentemente, a estabilidade financeira no local onde eles ocorrem.

Complementarmente, um outro estudo analisa os efeitos decorrentes de situações climáticas extremas como, por exemplo, enchentes e secas, investigando como a economia e o setor financeiro se adaptam a esses eventos. A pesquisa considera impactos sobre as cadeias de suprimento, atividades produtivas e instituições financeiras, permitindo o desenvolvimento de estratégias de mitigação e adaptação que fortaleçam a resiliência econômica.

Por fim, o Bacen pesquisa os riscos climáticos de transição com foco nos desafios associados à adaptação do SFN às mudanças regulatórias e à transição para uma economia de baixo carbono. Esse terceiro estudo avalia os potenciais impactos sobre as instituições financeiras, considerando a necessidade de ajustes nos modelos de negócios e na alocação de recursos, contribuindo para a gestão integrada dos riscos sociais, ambientais e climáticos.

Em conjunto, esses estudos visam a reforçar o compromisso do Bacen em promover um sistema financeiro resiliente, capaz de enfrentar eventos climáticos adversos e apoiar a transição sustentável da economia brasileira, fornecendo subsídios para políticas públicas e decisões estratégicas.

1 de maio de 2025

IFC inicia processo para aprimorar suas Diretrizes de Sustentabilidade

A International Finance Corporation – IFC, subsidiária do Banco Mundial para o setor privado, iniciou o processo para atualizar seu arcabouço de Diretrizes de Sustentabilidade, que incluem os oito Padrões de Desempenho sobre Sustentabilidade Socioambiental - PD.

A atualização das Diretrizes de Sustentabilidade oferece uma oportunidade para a IFC desenvolver e adotar um conjunto de políticas ambientais e sociais que reflita uma abordagem adequada às suas decisões de financiamento de projetos do setor privado, e que possa abordar os complexos riscos ambientais e sociais emergentes dos quais se destacam as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade.

Os PD da IFC são uma consagrada referência global para a identificação, avaliação e gestão de riscos ambientais e sociais utilizados no financiamento de projetos em mercados emergentes e economias em desenvolvimento, incluindo o Brasil. Os PD são também utilizados pelo setor financeiro mundial no âmbito dos Princípios do Equador.

Com base na experiência de uso das Diretrizes de Sustentabilidade, cuja versão atual é de 2012, a IFC reconhece ser necessário trazer maior clareza e modernizar certos requisitos dos PD. A IFC espera que o processo de atualização de suas Diretrizes de Sustentabilidade:

  • Incorpore as lições aprendidas desde 2012 com especialistas, profissionais, clientes e outras partes interessadas relevantes da área socioambiental;
  • Reflita uma revisão técnica aprofundada para modernizar a linguagem dos PD;
  • Esclareça a interação entre os PD e as leis nacionais aplicáveis a cada projeto a ser financiado;
  • Harmonize as Diretrizes de Sustentabilidade com os padrões mais recentes utilizados por outras instituições financeiras de desenvolvimento econômico e social em questões temáticas como reassentamento de pessoas, biodiversidade, grupos vulneráveis, povos indígenas, gênero e condições de trabalho.

A IFC realizará o processo de atualização de suas Diretrizes de Sustentabilidade em duas fases:

Fase I: Fase de Diálogo (duração de 9 a 12 meses, com conclusão prevista entre janeiro e março de 2026). Nessa fase a IFC realizará uma análise de seus 12 anos de experiência na implantação das Diretrizes de Sustentabilidade, incluindo os temas e áreas nos quais os seus clientes enfrentam dificuldades para atender aos requisitos dos PD.

Fase II: Fase de Consulta Pública (prevista para abril de 2026 a março de 2028). Essa fase será a base para a elaboração das Diretrizes de Sustentabilidade atualizadas, na qual a IFC espera contar com a relevante participação das partes interessadas.

Considerando os riscos ambientais e sociais emergentes e o cada vez mais complexo ambiente de negócios global, é oportuna a decisão de a IFC promover o aprimoramento de suas Diretrizes de Sustentabilidade. Esperemos que ao final do processo os clientes da IFC ganhem agilidade e possam implantar sólidos planos de ação e, dessa forma, mais eficientemente gerir seus projetos do ponto de vista dos riscos socioambientais.

31 de agosto de 2024

Banco Central enfatiza a gestão do risco climático no setor financeiro

O Banco Central (BC) acaba de divulgar a quarta edição do Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticos (RIS) de 2024. Vale mencionar aqui alguns de seus destaques.

No capítulo 1 do RIS, que trata da Governança, o BC apresenta a matriz de riscos estratégicos de 2024 referente ao objetivo de “promover finanças sustentáveis e contribuir para redução de riscos socioambientais e climáticos na economia e no Sistema Financeiro Nacional (SFN). Quanto a esse objetivo o BC identifica a possibilidade de perturbações à estabilidade do SFN decorrentes da ocorrência de eventos climáticos, ambientais e sociais, que têm se tornado mais frequentes e severos. Cita as enchentes que ocorreram em 2023 e 2024 no Rio Grande do Sul, que  podem impactar a estabilidade econômica local e, no limite, podendo contaminar o SFN. O monitoramento da saúde financeira de cooperativas de crédito e a atuação das esferas de governo no enfrentamento de catástrofes são ações mitigadoras desse risco.

No capítulo 2 do RIS, intitulado Planeta, o BC apresenta estudos e análises sobre possíveis impactos dos riscos sociais, ambientais e climático na política monetária e no SFN. Entre esses estudos, o BC salienta as consequências econômicas e financeiras do desastre de Mariana com foco na questão da disponibilidade de água limpa. O estudo procurou quantificar as externalidades negativas da contaminação da água do Rio Doce. Essa contaminação levou, primeiramente, à queda da produção e, depois, do consumo, com efeitos reais na produção agrícola e de serviços dos municípios afetados, causando uma queda de 7% no PIB local. Em suma, ficou evidente o declínio do consumo e a destruição da riqueza com efeitos consideráveis no PIB dos municípios litorâneos afetados mais dependentes da agricultura.

No RIS, o BC reconhece que os eventos climáticos extremos têm o potencial de afetar a estabilidade financeira. Nesse sentido tem procurado avançar na adoção de ações para mitigar os riscos climáticos, como, por exemplo, georreferenciar exposições de crédito das instituições financeiras ao risco climático físico. Além disso, no próximo ano, o BC pretende reavaliar as estimativas de impacto da materialização dos riscos físicos de secas e chuvas intensas sobre essas instituições, realizadas em 2023 e 2024, agregando novas metodologias e cenários que estão sendo desenvolvidos no âmbito da Network for Greening the Financial System (NGFS), da qual faz parte.

Além da maior frequência e agravamento dos eventos climáticos, o BC tem um outro importante motivo para avançar em relação ao aprimoramento da gestão e do monitoramento dos riscos climáticos no SFN. A pesquisa apresentada no Relatório de Estabilidade Financeira (REF), que o BC divulgou no último mês de abril, revelou que apenas 42% das instituições financeiras afirmaram que os riscos climáticos de transição fazem parte de seu gerenciamento de risco. E apenas 19% fazem avaliações desses riscos para um horizonte de longo prazo.

21 de abril de 2024

Estudo do Banco Central revela que menos da metade das instituições financeiras gerencia o risco climático de transição

Recentemente o Banco Central divulgou o Relatório de Estabilidade Financeira (REF). Com foco nos principais riscos e na resiliência do sistema financeiro nacional, o REF apresenta o panorama da evolução recente e as perspectivas para a estabilidade financeira no país.

Nessa nova edição do REF, o BC divulgou a pesquisa anual, referente a 2023, para identificar as percepções das instituições financeiras sobre os efeitos de riscos climáticos na estabilidade financeira. Das 100 instituições convidadas, 83 responderam à pesquisa (correspondendo a 77% dos ativos totais da amostra). Em relação ao ano anterior, a pesquisa revela aumento da preocupação das instituições financeiras sobre os potenciais efeitos dos riscos climáticos sobre o sistema financeiro. A seguir destacamos alguns dos principais resultados dessa pesquisa.

Apesar de o impacto relatado de eventos climáticos em 2023 ter sido muito baixo nas instituições, numa visão de mais longo prazo devem ganhar relevância os riscos físicos decorrentes de secas, escassez de recursos naturais e desertificação. Tais riscos geram danos aos ativos e processos produtivos, perdas e aumentos de custos para as empresas.

Por sua vez, os riscos climáticos de transição decorrem dos custos adicionais de adaptação dos processos produtivos e dos modelos de negócio a novos requisitos legais e regulatórios voltados a promover a transição para uma economia de baixo carbono. Esse processo de transição pode gerar mudanças nas preferências de consumo das pessoas e impor barreiras de mercado.

Portando, ambos os riscos climáticos, físicos e de transição, ameaçariam o sistema financeiro devido ao potencial crescimento da inadimplência das empresas decorrente do aumento de seus custos. Apesar disso, chama a atenção o fato de apenas 42% das instituições financeiras afirmarem que os riscos climáticos de transição fazem parte de seu gerenciamento de risco. E apenas 19% fazem avaliações desse risco para um horizonte de longo prazo.

As instituições financeiras ressaltam a importância da disponibilização de bases de dados com informações que possibilitem a análise dos impactos de riscos climáticos de uma maneira padronizada e mais ampla. Nesse sentido, vem em boa hora a consulta pública que o Banco Central está realizando para estabelecer requisitos quantitativos padronizados associados aos riscos e oportunidades climáticos e tornar sua divulgação anual obrigatória no Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticos (GRSAC) das instituições financeiras. A conferir as novas normas decorrentes dessa consulta e o aprimoramento da gestão dos riscos climáticos nas instituições financeiras.

31 de maio de 2023

Desmatamento: bancos impõem regras mais duras nos empréstimos aos frigoríficos, mas outros setores ficam de fora

No último mês de abril o Parlamento Europeu aprovou uma nova lei com o objetivo de garantir que determinados produtos vendidos no mercado da União Europeia (UE) deixem de contribuir para o desmatamento e a degradação florestal e, consequentemente, redução as emissões de carbono, a perda de biodiversidade e respeitem os direitos de povos indígenas. Para vender os seguintes produtos e seus derivados no mercado da UE as empresas serão submetidas a uma avaliação (prazo de 18 meses após sua entrada em vigor) de impacto a fim de verificar se estão associadas à expansão agrícola decorrente de desmatamento: óleo de palma, soja, madeira, cacau, café, gado bovino e borracha.

Na esteira dessa legislação da UE, a Federação Brasileira de Bancos – Febraban ontem, 30/05, divulgou um novo regulamento (Autorregulação), segundo o qual os bancos irão solicitar aos seus clientes frigoríficos e matadouros, na Amazônia Legal e no Maranhão, a implantação de um sistema de rastreabilidade e monitoramento que permita demonstrar, até dezembro de 2025, a não aquisição de gado associado ao desmatamento ilegal de fornecedores diretos e indiretos. Essa nova exigência se acresce a outras já em vigor, tais como a necessidade de o cliente apresentar o Cadastro Ambiental Rural – CAR e de não constar do cadastro de empregadores que tenham submetido trabalhadores a condições análogas à de escravo.

Além de reagir à referida lei da UE, a nova regra de Autorregulação da Febraban busca atender aos requisitos da Resolução 4945/2021 do Conselho Monetário Nacional e da Resolução 140/2021 do Banco Central que, respectivamente, obriga as instituições financeiras a estabelecer uma Política de Responsabilidade Socioambiental e Climática e estabelecer critérios socioambientais mínimos para na concessão de crédito rural.

É salutar a nova regra de Autorregulação da Febraban na medida em que sobe a régua dos critérios ESG na concessão de crédito para um setor de atividade sensível à questão do desmatamento ilegal. A conferir a transparência que os bancos darão ao progresso de desempenho dos frigoríficos ao longo do tempo de acordo com a nova regra. Além disso, seria importante a Febraban estender a regra aos frigoríficos e à cadeira da pecuária de todo o país e incluir regra semelhante aos demais setores de atividades atingidos pela lei da UE.

30 de maio de 2023

ESG: bancos se dividem entre priorizar a gestão de riscos ou a criação de oportunidades, estudo revela

A consultoria internacional Bain&Company, em parceria com a International Association of Credit Portfolio Managers – IACPM, divulgou neste mês de maio o Estudo ‘How financial services firms are wrestling with ESG’ (Como as instituições financeiras estão lutando com ESG). Esse estudo, resultante de uma pesquisa global com 55 instituições financeiras, que detêm US$ 40 trilhões de ativos, detalha como elas estão respondendo às pressões oriundas dos órgãos reguladores, acionistas e clientes no que diz respeito aos aspectos ESG.

O Estudo revela que há uma divisão entre os bancos: parte considera os aspectos ESG como riscos a serem gerenciados, e outra parte como oportunidades de negócios a serem capturadas.  O Estudo aponta que, apesar de os bancos estarem avançando em relação à incorporação dos fatores ESG em suas principais áreas de negócios, eles se sentem prejudicados pela falta de consenso em suas estruturas organizacionais (processos de gestão de riscos e de decisão carentes de clareza) e por diferentes prioridades regulatórias existentes entre as regiões e países onde atuam. No que diz respeito à organização interna, 40% afirmam que não incorporam responsabilidades aos colaboradores do ponto de vista ESG em suas linhas de negócios, o que está em desacordo com a melhor prática.

O Estudo destaca quatro áreas que merecem a atenção dos bancos: alinhar as partes interessadas no processo de descarbonização da economia, decidir as prioridades de financiamento para promover a transição energética, definir as estratégias para atender às demandas dos clientes em relação à descarbonização e transição e investir na análise de dados para aperfeiçoar as ferramentas de avaliação do risco climático.

Quanto ao risco climático, os bancos estão começando a incorpora-lo ao planejamento estratégico e decisões de empréstimos e contratação de seguros, reconhecendo que os impactos relacionados ao clima podem contribuir para aumentar o risco de crédito de maneira ainda não totalmente compreendida. Certamente a questão climática é um fator de atenção para os bancos, considerando que a lista dos 10 riscos com maior impacto provável de ocorrer no longo prazo (em até 10 anos), segundo o Global Risks Report 2023 do Fórum Econômico Mundial, são os riscos de falha na mitigação das mudanças climáticas, de falha na adaptação às mudanças climáticas e a ocorrência de desastres naturais e eventos climáticos extremos ocupam, respectivamente, os 3 riscos mais relevantes dessa lista. Por outro lado, há um grande potencial de novas oportunidades de produtos financeiros voltados à descarbonização e ao uso mais eficiente de recursos naturais.

11 de janeiro de 2023

Relatório do WEF coloca o risco de crise do custo de vida no topo de riscos globais

Como ocorre todo o início de ano, o World Economic Forum – WEF (Fórum Econômico Mundial) acaba de lançar o Global Risks Report 2023 (Relatório de Riscos Globais). Esse Relatório apresenta os resultados de uma Pesquisa de Percepção de Riscos Globais (Global Risks Perception Survey), que foi realizada entre 1.200 participantes, entre os quais formuladores de políticas, especialistas em riscos, membros da academia, empresas, governos e representantes de sociedade civil.

Com a pandemia global e a guerra na Ucrânia as crises de energia, alimentos e, consequentemente, de inflação e de segurança das pessoas retornaram ao topo das preocupações mundiais. Devido a essas crises, o risco de Custo de Vida passou a encabeçar a lista dos 10 riscos com maior impacto provável (gravidade) de ocorrer no curto prazo (até os próximos dois anos). No Relatório do ano passado, o risco da ocorrência de Eventos Climáticos Extremos ocupava esse posto. Na lista dos 10 riscos de curto prazo há 5 ambientais, 3 sociais (incluindo o de Custo de Vida), 1 geopolítico e 1 tecnológico.

O Relatório também apresenta a lista com os 10 riscos com maior impacto provável de ocorrer no longo prazo (em até 10 anos), da qual o risco de Falha na Mitigação das Mudanças Climáticas ocupa o topo da lista, repetindo a posição do ano passado. Nessa lista dos 10 riscos de longo prazo há 6 ambientais, 2 sociais, 1 geopolítico e 1 tecnológico.

A seguir as duas listas de riscos por categoria e prazo:

De acordo com o Relatório, os déficits de oferta de energia e alimentos devem perdurar durante os próximos dois anos e, portanto, permanecerão pressionando aumentos no custo de vida e no serviço da dívida dos países. Consequentemente, esses riscos de curto prazo prejudicam os esforços na busca de soluções para os riscos de longo prazo, destacadamente para aqueles relacionados à mudança climática, biodiversidade e investimento no capital humano. Tais esforços já vêm se mostrando insuficientes para conter as emissões de carbono e combater as alterações do clima na velocidade desejada, como tem revelado o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas). 

Sob pena de levar a um aquecimento global continuado e a um colapso ecológico, o Relatório alerta para a urgência de os países começarem a cooperar de forma mais eficaz quanto à mitigação e adaptação climática. Entretanto, desde o Acordo de Paris de 2015, que se propunha nessa direção, pouco se avançou.

Acesse o Global Risks Report2023 aqui.

31 de outubro de 2022

Bancos que adotam os Princípios do Equador reforçam diretrizes para solucionar queixas dos públicos afetados por projetos financiados

Nos dias 17 a 20 de outubro de 2022, aconteceu em Seul, capital da Coreia do Sul, a reunião anual das instituições financeiras que adotam os Princípios do Equador (PE). Lançados em 2003, esses Princípios são uma ferramenta que 138 instituições financeiras em 38 países adotam para identificar, avaliar e monitorar riscos socioambientais nas operações para financiamento de projetos. Os Princípios do Equador são um marco na gestão desses riscos no setor financeiro mundial.

As reuniões anuais servem para as instituições financeiras realizarem um balanço de como tem sido a experiência de cada uma delas na aplicação dos PE e, consequentemente, aperfeiçoá-los ao longo do tempo. Na última atualização dos PE, ocorrida em novembro de 2019 (PE 4), houve ampliação do seu escopo de aplicação (inclusão de mais modalidades de operações financeiras destinadas ao financiamento de projetos) e maior ênfase nas questões relacionadas aos direitos humanos e também às mudanças climáticas.

Na reunião anual de 2022, que acaba de se encerrar, as instituições financeiras lançaram um manual com orientações destinadas ao aperfeiçoamento dos chamados Mecanismos de Reclamação (Grievance Mechanisms). Tais mecanismos são os canais de comunicação por meio dos quais os trabalhadores e as comunidades afetadas podem livremente se manifestar a respeito de suas queixas e preocupações (impactos e riscos) socioambientais decorrentes dos projetos financiados no âmbito dos PE. A necessidade de implantação dos Mecanismos de Reclamação é prevista de acordo com o Princípio do Equador 6 (são dez Princípios no total) para todos os projetos classificados como de risco socioambiental “A” (riscos adversos significativos) e, quando apropriado, para projetos de risco “B” (riscos adversos limitados).

Ao lançar agora novas diretrizes, as instituições financeiras reconhecem que nem sempre os empreendedores têm o entendimento a respeito do funcionamento dos Mecanismos de Reclamação e o compromisso ou a capacidade de fornecer uma solução eficaz para as queixas levantadas pelas partes afetadas pelos projetos financiados. As diretrizes focam desde o início da implantação até a fase de operação dos projetos, particularmente nos de alto risco socioambiental onde os Mecanismos de Reclamação são necessários e os impactos adversos aos direitos humanos são mais prováveis de ocorrer.

Sem dúvida um passo importante no aperfeiçoamento dos PE. Contudo, as instituições financeiras precisariam exigir que os empreendedores dos projetos financiados dessem ampla divulgação dos mecanismos de reclamação e demonstrassem com transparência a solução para as queixas levantadas pelos públicos afetados por tais projetos. A conferir.

Desde 2015 a Consultoria Finanças Sustentáveis já realizou 45 auditorias socioambientais independentes dos Princípios do Equador e oferece curso específico sobre como implantá-los, incluindo os Padrões de Desempenho da IFC e as Diretrizes de Meio Ambiente, Saúde e Segurança do Banco Mundial (EHS Guidelines)

Acesse aqui o manual ‘Tools to Enhance Access to Effective Grievance Mechanisms and Enable Effective Remedy’.

16 de julho de 2022

Estudo de caso enfatiza a relevância da gestão de riscos ESG nos bancos

Neste momento no qual as questões sociais, ambientais e de governança ganham cada vez mais relevância no mundo dos negócios, é com satisfação ver o meu artigo 'Responsabilidade Socioambiental no Setor Financeiro: Caso de Financiamento ao Projeto de uma Hidrelétrica' publicado pela Revista Contemporânea. 

Nesse meu texto faço uma reconstituição histórica do financiamento concedido por uma instituição financeira ao empreendimento de uma usina hidrelétrica e suas consequências socioambientais na comunidade local. Por meio do estudo desse caso procuro demonstrar o quão relevante é para os bancos adotar robusta gestão de riscos como forma de minimizar riscos ESG, financeiros e legais decorrentes de impactos socioambientais causados por atividades que financiam.

(clique na figura para ler o artigo)

28 de abril de 2022

Bancos Centrais mundiais buscam melhorar a gestão de riscos ambientais

A NGFS - Network of Central Banks and Supervisors for Greening the Financial System acaba de publicar um relatório destacando a necessidade de transparência do mercado financeiro responsável pelo chamado financiamento ‘verde’ e de transição climática. Criada ao final de 2017, a NGFS é uma rede global de bancos centrais e autoridades de supervisão, da qual o Banco Central do Brasil faz parte, cujo objetivo é promover a gestão dos riscos ambientais no setor financeiro, sobretudo os riscos associados às alterações climáticas, e para apoiar a transição para uma economia mais sustentável.

Com base na experiência dos bancos centrais e em uma pesquisa realizada junto a 25 bancos centrais e 24 supervisores financeiros membros da NGFS, o novo relatório apresenta uma visão abrangente a respeito de três questões consideradas críticas envolvendo a transparência de mercado em finanças sustentáveis:

  • As taxonomias, ou seja, os sistemas de classificação usados para identificar ativos, projetos e atividades em função dos benefícios ou custos ambientais. Atualmente há um cenário global fragmentado com muitas taxonomias diferentes, impondo a necessidade de melhorar a comparabilidade e a integração entre as jurisdições de cada país.
  • Os mecanismos criados para a certificação e a verificação externas das credenciais ‘verdes’ de ativos, projetos e atividades. A revisão externa desempenha um papel importante para garantir a aplicação adequada dos princípios, padrões e taxonomias e, desse modo, promover a transparência do mercado.
  • A crescente gama de métricas, estruturas e produtos desenvolvidos para financiar a transição climática. Tais ferramentas são importantes para bancos centrais que estão procurando avaliar e orientar uma transição climática ordenada por meio do uso de abordagens baseadas no mercado.

De fato, essas questões remetem para a necessidade de o setor financeiro aprimorar a gestão de riscos ambientais a fim de alinhar os investimentos e mobilizar recursos financeiros destinados a introduzir tecnologias para reduzir as emissões de carbono e combate às mudanças do clima. Aqui vale lembrar o Global Risks Report 2022 do World Economic Forum – WEF, que colocou dois riscos ambientais no topo da lista de riscos da próxima década: o fracasso na ação climática e as condições climáticas extremas.

12 de janeiro de 2022

Global Risks Report 2022 aponta ‘fracasso na ação climática’ como o risco número um da próxima década

O World Economic Forum – WEF acaba de lançar o Global Risks Report 2022. Este Relatório apresenta os resultados de uma Pesquisa de Percepção de Riscos Globais realizada entre quase mil especialistas e líderes mundiais, que identificaram os riscos críticos para seus respectivos 124 países, seguida por uma análise dos principais riscos que emanam das atuais tensões econômica, social, ambiental e tecnológica.

O Relatório identifica os cinco riscos mais graves em escala global ao longo dos próximos 10 anos, sendo três primeiros riscos ambientais e seguidos de dois riscos sociais: 1º Fracasso na ação climática; 2º Condições climáticas extremas; 3º Perda de biodiversidade; 4º Erosão da coesão social; e 5º Crise de meios de subsistência.

Com relação ao Brasil, os respondentes da Pesquisa de Percepção identificaram os seguintes cinco principais riscos, evidenciando a preocupação existente no pais em relação ao baixo crescimento econômico e elevado desemprego: 1º Estagnação econômica prolongada; 2º Crises de emprego e subsistência; 3º Desigualdade de acesso digital; 4º Danos ambientais causados pela ação humana; e 5º Geopolitização de recursos estratégicos.

É interessante destacar também o resultado da Pesquisa de Percepção com relação ao horizonte dos riscos globais (quando os riscos se tornarão uma ameaça crítica para o mundo), no qual os riscos ambientais predominam à medida do maior prazo:

  • No horizonte de curto prazo (0 a 2 anos): 1º Condições climáticas extremas; 2º Crise de meios de subsistência; 3º Fracasso na ação climática; 4º Erosão da coesão social; e 5º Doenças infecciosas.
  • No horizonte de médio prazo (3 a 5 anos): 1º Fracasso na ação climática; 2º Condições climáticas extremas; 3º Erosão da coesão social; 4º Crise de meios de subsistência; e 5º Crise da dívida pública.
  • No horizonte de longo prazo (6 a 10 anos): 1º Fracasso na ação climática; 2º Condições climáticas extremas; 3º Perda de biodiversidade; 4º Crise de recursos naturais; e 5º Danos ambientais causados pela ação humana.

Principalmente por causa da crise sanitária e dos riscos econômicos que se aprofundaram com a pandemia da COVID 19, o Relatório de 2022 identifica o risco de ‘fracasso na adoção de medidas de combate às mudanças climáticas’ como o risco número um da próxima década. Há um aumento na percepção desse risco, uma vez que já vinha sendo listado nos Relatórios anteriores.

O fato de os riscos ambientais predominarem no horizonte de mais longo prazo revela a urgente necessidade de os países e o setor privado mobilizarem recursos financeiros destinados a introduzir tecnologias para reduzir as emissões de carbono, limitando o aumento da temperatura do planeta em até 1,5º C acima do nível pré-industrial, conforme o compromisso que assumiram na última Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021 (COP26). Os respondentes da Pesquisa de Percepção, contudo, demonstram ceticismo em relação a esse compromisso.

 

Leia aqui o Global Risks Report 2022.

15 de setembro de 2021

Banco Central divulga novas diretrizes ESG para instituições financeiras com foco no risco climático

O Banco Central do Brasil – Bacen anunciou hoje, 15/09, novas resoluções direcionadas ao aprimoramento e ampliação das diretrizes ESG (Ambientais, Sociais e de Governança) para as instituições financeiras que operam no país. Esse anúncio é o resultado das consultas públicas que o Bacen realizou no início de 2021 no âmbito da sua Agenda BC na dimensão sustentabilidade. Na mesma ocasião o Bacen também divulgou o seu primeiro Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticas, apresentando de forma integrada as suas ações relacionadas à gestão dos fatores ESG que podem impactar o próprio Bacen e o sistema financeiro nacional.

Entre as novas resoluções divulgadas, que passam a vigorar em 2022, destacamos:

A Resolução CMN 4.943/2021 dispõe sobre a estrutura de gerenciamento de riscos e de capital e a política de divulgação de informações e altera a Resolução 4.557/2017. Essa nova Resolução passa a incluir a necessidade de os bancos gerenciarem o risco climático, além dos riscos sociais e ambientais. Define o risco climático em suas vertentes de risco de transição e de risco físico, sendo risco climático de transição a possibilidade de ocorrência de perdas para o banco ocasionadas por eventos associados ao processo de transição para uma economia de baixo carbono. E risco climático físico a possibilidade de ocorrência de perdas para o banco ocasionadas por eventos associados a intempéries frequentes e severas ou a alterações ambientais de longo prazo, que possam ser relacionadas a mudanças em padrões climáticos.

A Resolução CMN 4.945/2021 dispõe sobre a obrigatoriedade de as instituições financeiras implantarem uma Política de Responsabilidade Social, Ambiental e Climática (PRSAC) e revoga a Resolução 4327/2014. Essa nova Resolução traz aperfeiçoamentos e amplia o escopo da PRSAC, passando a também incluir diretrizes de natureza climática que os bancos devem observar na gestão de riscos e condução de seus negócios decorrente do disposto na Resolução 4.943.

A Resolução BCB 139/2021 dispõe sobre a obrigatoriedade de os bancos divulgarem anualmente o Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticas. Esse Relatório deve incluir relevantes impactos reais e potenciais de tais riscos nas estratégias adotadas pelos bancos nos negócios e no gerenciamento de risco e de capital nos horizontes de curto, médio e longo prazos, considerando diferentes cenários, segundo critérios documentados.

É bastante oportuna, e não poderia mais tardar, a movimentação do Bacen no sentido de avançar a pauta ESG no setor financeiro brasileiro. O aprimoramento das diretrizes ESG e a inclusão da questão climática promovidos pelas Resoluções supramencionadas vão ao encontro do alerta divulgado no relatório do IPCC - Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, lançado no último mês de agosto, segundo o qual “as mudanças climáticas já estão entre nós, ocorrendo de modo rápido, generalizado e estão se intensificando e, em alguns casos, já podem ser irreversíveis”. Como intermediadores de recursos entre os diferentes agentes econômicos, as instituições financeiras exercem um papel relevante no combate às mudanças do clima e no direcionamento de recursos voltados a promover a transição para uma economia de baixa emissão de carbono.

Acesse aqui o Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticas do Bacen.

Acesse aqui as novas Resoluções.

5 de agosto de 2021

BNDES amplia a iniciativa de cortar juros para setores comprometidos com redução de carbono

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES acaba de anunciar que reduzirá a taxa de juros nos financiamentos que concede a setores comprometidos com a redução das emissões de carbono. Esta importante iniciativa trata-se de uma ampliação do Programa BNDES de Incentivo à Redução de Emissões de Carbono (CO2), que o banco lançou em janeiro de 2021 para o setor de combustíveis – BNDES RenovaBio. Paralelamente a esse anúncio, o BNDES também decidiu deixar de conceder financiamentos a projetos do setor de produção e de usinas térmicas movidas a carvão mineral.

Por meio do RenovaBio o BNDES concede financiamentos visando estimular empresas produtoras de biocombustíveis a melhorar sua eficiência energético-ambiental. As empresas que, ao longo do período de pagamento dos empréstimos, alcançarem as metas de redução de emissão de CO2 estipuladas pelo programa terão redução de até 0,4 ponto percentual na taxa de juros, caso a empresa comprove, após ter alcançado as metas de redução de emissão de carbono definidas pelo BNDES RenovaBio.

Agora o BNDES estende essa iniciativa a outros setores grandes emissores de carbono, como metalurgia e siderurgia. Com essa ampliação, o BNDES objetiva incentivar a criação de um mercado de carbono dentro da sua carteira de crédito:  empresas de setores que retiram carbono do meio ambiente poderiam negociar créditos de carbono com empresas que têm o desafio de reduzir sua pegada de carbono.

Sendo um dos maiores bancos de desenvolvimento do mundo e, hoje, o principal instrumento do Governo Federal para o financiamento de longo prazo e investimento em todos os segmentos da economia brasileira, o BNDES têm o poder de repercutir essas iniciativas em todo o setor financeiro brasileiro e contribuir com o processo de transição das empresas para a economia de baixo carbono. Além disso, elas estão em linha com as recentes diretrizes do Banco Central do Brasil que visam avançar a pauta ESG no setor financeiro, a saber: a revisão da Política de Responsabilidade Socioambiental das instituições financeira (Resolução 4327/2014) para aperfeiçoar a definição de risco socioambiental e incluir o conceito de risco climático; e aprimorar os critérios de publicação de informações sobre os riscos e as oportunidades associadas às mudanças climáticas.

8 de abril de 2021

Banco Central abre consulta pública para aprimorar a Política de Responsabilidade Socioambiental dos bancos

O Banco Central do Brasil (BC) anunciou nesta semana o início de uma nova consulta pública visando a alteração de regras para gerenciamento dos riscos ESG pelas instituições financeiras. Essa movimentação do BC era esperada e necessária, considerando que Resolução 4327, lançada em abril de 2014, e que introduziu a necessidade de os bancos implantarem Política de Responsabilidade Socioambiental - PRSA, merece revisão e atualização a fim de incorporar os compromissos assumidos pelo Brasil no Acordo de Paris de 2015 e a crescente priorização das questões ESG nos processos de decisão de investimentos.  

Em setembro de 2020 o BC lançou a chamada Agenda BC# com o objetivo de avançar a pauta ESG no setor financeiro nacional. No escopo dessa Agenda, no último dia 11 de março, o BC iniciou uma consulta pública para incluir critérios ESG no crédito rural. Agora, por meio dessa nova consulta pública, o BC busca aprimorar a definição dos riscos social, ambiental e climático no sentido de integra-los mais efetivamente ao gerenciamento dos demais riscos tradicionais (crédito, mercado, liquidez e operacional). Tendo como foco o tratamento da possibilidade de perdas financeiras, ao final, o BC pretende introduzir critérios mínimos a serem observados pelos bancos na identificação, mensuração, avaliação, monitoramento, relato, controle e mitigação dos efeitos adversos das interações entre esses riscos.

A consulta pública ora lançada resultará em novas regras do BC para que as instituições financeiras implantem uma Política de Responsabilidade Socioambiental e (também) Climática – PRSAC e divulguem aos seus stakeholders as ações desenvolvidas relativas à gestão dos aspectos ESG no âmbito dos negócios. A conferir como será a regra para essa futura divulgação de informações, que atualmente carece de conteúdo e transparência.

Acesse aqui para participar da consulta pública 85/2021, que dura até o dia 05/06/2021.

12 de março de 2021

Banco Central abre consulta pública para incluir critérios ESG no crédito rural

O Banco Central (BC) iniciou em 11 de março a consulta pública visando incluir critérios ESG (Ambientais, Sociais e de Governança) nas operações de crédito rural disponibilizadas pelos bancos brasileiros. Essa iniciativa integra a dimensão ‘Sustentabilidade’ da chamada Agenda BC#, que foi lançada em setembro de 2020 (vide aqui o nosso artigo Banco Central busca avançar na pauta ESG) com o objetivo de reduzir a exposição dos agentes de mercado a riscos socioambientais e climáticos.

Ao lançar a referida consulta, o BC busca regulamentar os financiamentos rurais de acordo com a seguinte classificação:

1) Empreendimentos que não poderão ser financiados com crédito rural, em razão da existência de impeditivos legais ou infralegais, tais como sobreposição com terras indígenas, desmatamento ilegal no bioma Amazônia, ou autuação por trabalho escravo.

2) Empreendimentos que poderão ser financiados com crédito rural, com sinalização às instituições financeiras de que a operação representa risco socioambiental. Esses empreendimentos não poderão receber a classificação de operação sustentável. Enquadram-se neste caso áreas embargadas ou autuação por trabalho infantil.

3) Empreendimentos que poderão receber a classificação de operação sustentável, em razão do atendimento a parâmetros de sustentabilidade socioambientais, tais como agricultura de baixo carbono, outorga de água, ou utilização de energia renovável gerada na propriedade rural.

Segundo o BC, os critérios a serem definidos após a consulta pública integrarão o Sistema de Operações do Crédito Rural do Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária) e contribuirão para que as instituições financeiras aperfeiçoem seus processos de identificação, avaliação e gerenciamento dos riscos socioambientais associados ao crédito rural.

Ainda de acordo com o BC, as informações dos financiamentos rurais concedidos por uma instituição financeira poderão ser disponibilizadas a qualquer outra, mediante autorização do empreendedor, dentro dos princípios do open banking, incentivando a competição. Poderão ser utilizadas também utilizadas por certificadoras de títulos de crédito sustentáveis, agências de rating especializadas nos critérios ESG, e prestadores de serviços contratados para auditar a aderência de empreendimentos a requisitos socioambientais para permitir a emissão de títulos verdes. 

Essa mais nova iniciativa está em linha com a Resolução 4.327 de 2014 e a Resolução 4.557 de 2017 do BC que tratam, respectivamente, da Política de Responsabilidade Socioambiental e da estrutura de gerenciamento de riscos e estrutura de gerenciamento de capital das instituições financeiras. Definitivamente um avanço na agenda ESG do país, considerando o alcance da cadeia produtiva do setor agrícola e sua representatividade na formação do Produto Interno Bruto.

A consulta pública estará disponível até 23 de abril no site do BC.

19 de janeiro de 2021

Relatório do WEF identifica os maiores riscos globais para 2021: risco climático é destaque

Como ocorre em todo início de ano, acontece agora em janeiro a reunião do WEF - World Economic Forum (Fórum Econômico Mundial) em Davos na Suíça. Nessa ocasião o WEF lança o seu Global Risks Report (Relatório de Riscos Globais). A 16ª. edição desse Relatório traz uma análise dos riscos para o ano de 2021 em face do ano passado, que foi duramente atingido pela pandemia, crise econômica, turbulência política e o agravamento da crise climática. O novo Relatório explora como os países e as empresas podem agir para enfrentar esses riscos.

Sem surpresa, uma das grandes mudanças entre este ano e 2020, em termos de riscos, foi provocada pela pandemia do coronavírus. O risco representado por doenças infecciosas está agora classificado em primeiro lugar, enquanto em 2020 estava em 10º lugar. O Relatório enfatiza que o custo humano e econômico imediato resultante da pandemia é severo, ameaçando reduzir anos de progresso na redução da pobreza e da desigualdade social para grande parte da população mundial, principalmente devido ao desemprego.

O WEF elabora o Relatório com base numa pesquisa anual, que foi concluída por mais de 650 de seus membros, a respeito da percepção de riscos globais agrupados em 5 categorias: econômicos, ambientais, geopolíticos, sociais e tecnológicos. Considerando uma perspectiva de dez anos, o Relatório aponta os 10 maiores riscos por probabilidade de ocorrência e os 10 maiores riscos por potencial de geração de impacto, dos quais a seguir listamos os riscos ambientais e sociais (por ordem de classificação de probabilidade / impacto):

Eventos climáticos extremos - Perda de vidas humanas, danos aos ecossistemas, destruição de propriedades e / ou perdas financeiras em escala global como resultado de eventos climáticos extremos: frentes frias, incêndios, inundações, ondas de calor, tempestades de vento etc. (1º. / 8º.).

Fracasso na adoção de medidas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas - Falha dos governos e empresas em fazer cumprir, disseminar ou investir em medidas eficazes de adaptação e mitigação das mudanças climáticas, preservar ecossistemas, proteger populações e fazer a transição para uma economia neutra em carbono (2º. / 2º).

Danos ambientais causados pela ação humana - Perda de vidas humanas, custos financeiros e/ou danos aos ecossistemas como resultado da atividade humana e/ou falha na coexistência com ecossistemas: desregulamentação de áreas protegidas, acidentes industriais, derramamentos de óleo, contaminação radioativa, comércio de animais silvestres, etc. (3º. / 6º.).

Doenças infecciosas - Propagação massiva e rápida de vírus, parasitas, fungos ou bactérias que causam o contágio descontrolado de doenças infecciosas, resultando em uma epidemia ou pandemia com perda de vidas e perturbação econômica (4º. / 1º.).

Perda de biodiversidade - Consequências irreversíveis para o meio ambiente, a humanidade e a atividade econômica decorrente de uma destruição permanente do capital natural: extinção e/ou redução de espécies, perda relevante de biodiversidade e colapso dos ecossistemas terrestres e marítimos (5º. / 4º.).

Crises dos meios de subsistência - Deterioração estrutural das perspectivas de trabalho e/ou padrões para a população em idade ativa: desemprego, subemprego, redução de salários, fragilização de contratos de trabalho, perda de direitos trabalhistas, etc. (10º. / 7º.)

Crises de recursos naturais - Colapsos alimentar, mineral, hídrico ou de outros recursos naturais em escala global como resultado da sobre-exploração humana e/ou má gestão de recursos naturais relevantes (-- / 5º.).

Observa-se que entre os riscos de maior probabilidade de ocorrer na próxima década destacam-se: os eventos climáticos extremos, a falha em lidar com as mudanças climáticas e os danos ambientais causados pela ação humana. Entre os riscos de maior impacto da próxima década, as doenças infecciosas aparecem no primeiro lugar, seguido por falha em lidar com as mudanças climáticas e outros riscos ambientais. Assim, apesar das consequências inevitáveis da pandemia do coronavírus, são as questões relacionadas à mudança do clima que constituem a maior parte da lista de riscos deste ano de 2021, que o Relatório descreve como "uma ameaça à existência da humanidade". 

Por conter recomendações de como agir diante desses riscos, o Relatório do WEF contribui para a gestão deles nas empresas.

Acesse aqui o 2021 Global Risks Report

20 de novembro de 2020

Bancos criam padrão para relatar emissões de carbono vinculadas a operações financeiras

Bancos mundiais que integram a Partnership for Carbon Accounting Financials – PCAF acabam de anunciar a criação de um padrão de contabilidade global para avaliar o impacto climático das suas operações financeiras: o Global Green House Gases Accounting and Reporting Standard for the Financial Industry - GHGARS. Criada em 2015, a PCAF é uma parceria de instituições financeiras mundiais que trabalham para desenvolver e implantar uma abordagem comum para avaliar e divulgar as emissões de carbono associadas a seus empréstimos e investimentos.

O Padrão GHGARS permite que as instituições financeiras divulguem as emissões de Gases de Efeito Estufa – GEE ou emissões de carbono para uma data específica e de acordo com a periodicidade das suas demonstrações financeiras. Medir as emissões de carbono relacionadas às transações financeiras (emissões financiadas) permite que os bancos divulguem aos seus públicos de interesse informações transparentes a respeito da exposição a essas emissões, podendo identificar riscos e oportunidades decorrentes da transição climática e definir as metas de redução de emissões em linha com o Acordo de Paris.

Em resposta à demanda do setor financeiro por uma abordagem global padronizada de contabilização das emissões de carbono, o PCAF desenvolveu o Padrão GHGARS. Esse Padrão foi revisado pelo GHG Protocol, que é uma ferramenta, mundialmente reconhecida, para identificar, quantificar e gerenciar emissões de GEE.

Amplamente testado pelas instituições financeiras, o Padrão GHGARS fornece orientação metodológica detalhada para a medição e divulgação das emissões de GEE associadas a seis classes de ativos: 1) ações e títulos de dívida emitidos por empresas de capital aberto; 2) empréstimos comerciais e ações de empresas de capital fechado; 3) operações de project finance; 4) empréstimos imobiliários; 5) hipotecas; e 6) financiamento de veículos.

Ao fornecer métodos padronizados e robustos para medir as emissões financiadas, a utilização do Padrão GHGARS permite que as instituições financeiras avaliem os riscos relacionados ao clima de acordo com a Task  Force on  Climate-related  Financial Disclosures – TCFD (Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima) e estabeleçam estratégias e ações climáticas para desenvolver produtos financeiros inovadores que apoiem a transição para uma economia com baixa emissão de carbono.

A PCAF é um grupo atualmente formado por 87 membros (bancos comerciais, bancos de desenvolvimento, gestores de ativos e seguradoras), dos quais somente um grande banco privado brasileiro faz parte. A PCAF espera expandir o grupo para 100 instituições financeiras até o fim de 2020 e chegar a 250 em 2022. O grupo pretende adicionar mais classes de ativos ao Padrão GHGARS, incluindo títulos soberanos e green bonds.

Acesse aqui o Padrão GHGARS.

9 de setembro de 2020

Banco Central busca avançar na pauta ESG

O Banco Central do Brasil anunciou nesta semana uma ‘nova agenda sustentável’. Como temos observado em nossos artigos anteriores (Estudo revela carência na gestão do risco climático em bancos latino-americanos de 06/08/2020; e Bancos Centrais mundiais lançam diretrizes para avaliar melhor os riscos climáticos de 25/06/2020), a atuação do BC, no que se refere a inserir os aspectos ESG – Ambientais, Sociais e de Governança no setor financeiro brasileiro, já de algum tempo vem merecendo atualização e adoção de medidas que efetivamente aperfeiçoem a gestão desses aspectos, tanto para minimizar riscos, como para criar produtos financeiros voltados à promoção da economia de baixo carbono e de menor consumo de recursos naturais.

A Resolução 4327 de abril de 2014, que obriga as instituições financeiras a implantar uma Política de Responsabilidade Socioambiental, foi um passo importante do BC na direção da agenda sustentável. Contudo, desde então, houve o Acordo de Paris em 2015 e ficam cada vez mais evidentes os impactos negativos que as mudanças do clima provocam no ambiente de negócios. Além disso, a pandemia do novo coronavírus desencadeou uma onda pró-retomada ‘verde’ da economia global, pegando o Brasil na contramão desse movimento devido ao aumento das queimadas, principalmente no bioma da Amazônia, e ao afrouxamento da agenda ambiental do país.

Agora, com o lançamento da ‘nova agenda sustentável’, o BC procura se atualizar em relação a esse contexto, onde cada vez mais os gestores de investimentos internacionais e, ao que tudo indica pelas últimas iniciativas, também os investidores locais buscam priorizar os aspectos ESG em suas decisões de negócios. Nesse sentido, o BC anunciou a adoção de uma série de medidas, das quais destacamos as seguintes:

1. Promover a revisão da Política de Responsabilidade Socioambiental da Resolução 4327 visando aprimorar a definição de risco socioambiental e incluir o conceito de risco climático e testes de estresse.

2. Seguir as recomendações da Task Force on Climate-related Financial Disclosures – TCFD (Grupo de Trabalho sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima) para aprimorar os critérios de publicação de informações das instituições financeiras sobre os riscos e as oportunidades associadas às mudanças climáticas.

3. Participar do Network for Greening the Financial System – NGFS, rede mundial de bancos centrais, visando ao aprimoramento da análise de dados e a mitigação dos riscos socioambientais no sistema financeiro.

4. Analisar a viabilidade e posterior implantação de novas linhas de financiamento para as instituições financeiras, a fim de favorecer a emissão de títulos verdes e a criação de selo/nota de nível de aderência a critérios de sustentabilidade.

A ‘nova agenda sustentável’ do BC é ampla e requer agilidade na sua implantação. É uma agenda imprescindível para reconquistar a confiança dos investidores globais no país, que tanto precisa de capitais para a realização de investimentos em infraestrutura. Será importante o BC dar transparência a cada etapa realizada da agenda e seus respectivos resultados alcançados.